As bolsas da noite
Se você tem medo do escuro, pode ser que te faça bem acender uma luz pequena.
Por mais difícil que seja convencer a cama de que em cima dela já não dorme a menina de antes, a casa já não é a mesma e nem todo abandono é abandono que conduz aos banheiros da casa.
A menina procurava banheiros e suas pequenas luzes acesas, só o suficiente para que ela se visse no espelho e confirmasse
“sim, eu existo”
As luzes pequenas nunca acordariam a casa que poderia dormir em paz certa de que meninas são invenções de uma rua chamada Infância e a casa sendo muito adulta poderia seguir sua certeza de que tudo passa.
Por mais difícil que pareça, pode ser que seja bom fazer o que fazia Cortázar em matéria de bolsas. A cada vez que uma mulher se afastava da bolsa que carregava, o menino Cortázar abria o zíper e espreitava o fundo.
Pensando bem, a noite é uma bolsa que se pode explorar com uma luz pequena, como quem abre um cofre ou um segredo. Cortázar encontrava batons, bilhetes, um santinho rezando um credo, uma data anunciando um mapa, como fazem todos os mistérios.
Abrindo a noite, eu vejo a menina e repito o nome da rua, o número da casa, a textura da janela e rezo que apesar dos abandonos há um mapa, basta respirar e desenhar a saída com o batom que quase não liga para as bocas.
A menina suspira e resiste, respondendo de dentro do zíper que diante de algumas notícias nosso corpo não sabe se pode, se deve, na verdade ele não se lembra onde estão seus rumos. Diante do mundo o corpo cambaleante, frágil, os ossos esquecidos dos seus motivos, esse corpo tenta, ele bem que tenta, dizer a palavra “eu” mas a garganta falha e nessa hora, exatamente nessa hora é que você precisa acender a mínima luz como quem abre a bolsa e recolhe os seus tesouros.


